JOSÉ CID edita triplo vinil de Rock Sinfónico, VOZES DO ALÉM, a 3 de Dezembro

 

Ao seu 25.º álbum de estúdio, o artista galardoado em 2019 com o Grammy Latino de Excelência Musical amplifica as possibilidades do rock conceptual – sem reciclar o caminho entre Vénus e Marte.

Em Vozes do Além, José Cid une os seus versos aos de Arnaldo TrindadeNatália Correia ou Sophia de Mello Breyner Andresen, numa jornada melódico-obsessiva pela reencarnação

Entre os óleos da mulher Gabriela CarrascalãoJosé Cid encontrou um quadro curioso: uma galeria de fantasmas. Mudos, de lábios cerrados e feições pálidas, não eram como os outros fantasmas que Cid acalentava, afectos à melodia, ao terror e ao amor. “Gabriela, já sei qual é a capa do meu álbum” … mediante uma alteração. Ao pedido de Cid, a pintora rasgou-lhes a boca, para lhes devolver a vida — imortalizada no óleo que serve de capa a Vozes do Além, o 25.º álbum de estúdio do artista chamusquense.

No princípio era a morte, se o princípio significar 2020. Um ano em que Cid equilibrou dois fantasmas: em simultâneo ao luto, sentia crescer outro rugido dentro de si. Vinha de uma música extra-vida, que o perseguia já desde 1994, ano em que o grande público o via despido de preconceitos, apenas com um disco de ouro entre as pernas, num retrato hoje icónico. Em público, dividia-se entre coragem e caricatura — na intimidade, Cid equilibrava algo mais sensível.

Tudo começou quando o produtor Rui Vaz me mostrou o poema ‘Um Dia’, de Sophia de Mello Breyner Andresen:

Um dia, mortos gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.”

 Voltaremos? Foi esse o móbil que norteou Cid, durante três décadas, numa demanda poética pelo ideal da reencarnação (à qual juntou a sua própria pena). “Comecei a juntar opiniões muito díspares, mas que levavam todas a um único sítio.” Ao compilar essa bibliografia, ancorou-a sobretudo em nomes do século XX: Natália CorreiaAurelino CostaManuel LamasSérgio Nascimento ou Federico Garcia Lorca (cujos textos já havia cantado em 1998, num disco de homenagem). Faltava, contudo, pensar a matéria sonora. Rareava o tempo de contemplar e aflorar, que os anos 90, com uma agenda frenética, lhe interditaram.

Ao fim de 30 anos, pela força do confinamento pandémico, as Vozes do Além haviam finalmente cercado Cid — e foi então que se decidiram derramar sobre os Acid Studios de Mogofores, para semear um álbum prometido, do tamanho do futuro. Pelo caminho, encontrou novos colaboradores, como as bandas Ganso Prana, que participam respectivamente nas faixas “Porta Fechada” e “Homem do Além”.

Vozes do Além é o seu quarto projecto de rock progressivo, após a obra-ensaio que compôs em 1975 para o Quarteto 1111, Onde Quando Como Porquê Cantamos Pessoas Vivas, o EP de 1977 Vida (Sons do Quotidiano) e o mitológico LP de 1978 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Mas Cid renega essa publicidade fácil: “Prometi a mim mesmo que ninguém poderia, a não ser de ânimo leve, dizer que este álbum é semelhante a 10.000 Anos. Não é, não é, não é!“.

Cid e o produtor Xico Martins burilaram um som diferente, apesar de confluírem na fome por uma linguagem progressiva e uma liberdade jazzística. E volta a ser analógico por inteiro, o que exigiu desgravar faixas em velhas bobines: “Não houve um computador naquele estúdio!” Assim se enformou um limbo musical em três eixos: as teclas do sintetizador e do Mellotron, os refrães indeléveis e a vertiginosa potência vocal de Cid aos 79 anos.

Nesse purgatório, negoceia-se entre elegias fantasmáticas (“Reencarnar É Possível”, em co-autoria com Tozé Brito e Inês Menezes), baladas titânicas (o single “Vou-te Amar Para Além da Morte” ou “É Esta Alma Que Eu Tenho”, poema escrito pela amiga Maria Luísa Batista antes de falecer) e malhas onde a guitarra recrudesce sem pudor. Para Cid, o coração do disco está na faixa-título, uma propulsão rock sem limites – mas também no epílogo, “Maria de S. João”, dedicado à irmã homónima onde encontrou um amparo incondicional.

Este álbum é conclusivo da minha vida, da minha carreira“, avisa Cid. O que significa isso? Nada temam, não é um ponto final. O músico está ciente do fim que espreita por entre as frestas — “mas não vou morrer. Nem pensem!” Sabe, como os poetas, que a morte é apenas um limite, uma lei de que alguns se vão libertando, por não recearem fixá-la com papel e caneta. Para José Cid, bastou usar a música que sempre esteve dentro de si.