Reagendamento do Boom 2020 Para 22 a 29 de Julho 2021

Bastou um agente infeccioso submicroscópico para pôr de joelhos pilares fundamentais da civilização humana. Não foi preciso dilúvio ou messias. Um vírus revirou a sociedade que apregoava super-humanos, viagens turísticas à lua e transumanismo. A natureza, com toda a sua magnanimidade, tem uma ironia desarmante neste Antropoceno.

No dia 13 de Março comunicámos que trabalhávamos para o Boom acontecer em Julho 2020. Observando a pandemia Covid-19, considerávamos ainda a não realização caso a situação mundial se deteriorasse.

Somos um festival que visa o desenvolvimento humano. Através da experiência social de celebração que funde música, artes, cultura, sustentabilidade, bem-estar, conhecimento e natureza almejamos um estado de união sublime (Oneness) entre seres humanos e o todo. É uma experiência de pertença, de contacto próximo, de amor e paz.

O presente momento não nos permite alcançar estes propósitos de vida do Boom. A situação Covid-19 continua a degradar-se. É irrealista achar que se a pandemia passar até Julho os efeitos psicológicos irão desaparecer subitamente.

As limitações que a pandemia impôs à produção e logística do festival, assim como à comunidade mundial Boomer, com supressão de movimentos por tempo indeterminado, obriga-nos a uma decisão.

É uma escolha que nos abala. Irá colocar a organização numa situação extrema. Os Boomers, as famílias e pessoas que trabalham; free lancers, artistas, técnicos, fornecedores, os que beneficiam com o evento, particularmente a região onde se realiza o festival e o país que o acolhe. É um tempo de incerteza. Não obstante, consideramos que é a decisão sensata.

Perante esta pandemia, há que ser ético e responsável. Para salvaguardar a saúde pública, os Boomers, o espírito do Boom; norteados pelos nossos princípios e, especificamente pelos de Humanismo e Unidade; seguindo as orientações em Portugal patentes no Decreto-Lei n.º 10-I/2020, que se aplica a todos os espetáculos que não podem ser realizados no lugar, dia ou hora agendados, entre os dias 28 de fevereiro de 2020 e até ao 90.º dia útil seguinte ao fim do estado de emergência somos obrigados a reagendar a edição de 2020.

A 13ª edição do Boom Festival será entre 22-29 Julho 2021 (Lua Cheia).

Consideramos que antes não estarão reunidas todas as condições para a realização do evento em segurança sanitária e acesso equitativo de Boomers de todo o mundo.

O mundo como o conhecemos mudou radicalmente, de forma difícil de categorizar. No momento em que escrevemos este texto, o vírus já se espalhou para 202 países e territórios, com mais de 650.000 casos confirmados, ultrapassando outros grandes surtos de infecção do passado. Ao dia 26 de Março de 2020 ⅓ da humanidade estava em isolamento obrigatório.

Somos incitados a isolarmo-nos, a manter o distanciamento social, a não beijar, abraçar, tocar. Cancelam-se eventos, fecham-se as fronteiras e clubs. As cadeias de distribuição dinamitam-se.

Existe trauma. Cresce o medo. Este, diz o filósofo José Gil, “encolhe o espaço, suspende o tempo, paralisa o corpo, limitando o universo a uma bolha minúscula que nos aprisiona e nos confunde”.

É por isso que nós humanos, seres sociais, quando acossados pelo medo nesta crise, alargámos os limites do espaço a que o vírus nos confinou: fomos cantar e tocar para as janelas, organizámos eventos de streaming para que a música não parasse. Inclusive o Boom associou-se a um movimento global de criação de um novo espaço comum.

Desde o começo de Março que as equipas de Lisboa e Porto trabalham a partir de casa. A seguir, foi a vez da Boomland ficar sem trabalhos a decorrer devido à pandemia.

Toda a produção está afectada. Somos um festival que depende dos bilhetes para sobreviver e tem sido esse apoio que financia tudo até agora desde o começo de 2019. Neste momento trabalham 100 pessoas para o festival. Em Maio seriam cerca de 200, em Junho 300 de mais de 35 nacionalidades e os números não iriam parar de subir.

A construção do Boom Festival demora muitos meses, construímos praticamente tudo de raiz, com elevada atenção ao detalhe. Existe interrupção das cadeias de abastecimento, fábricas e fornecedores estão em suspenso, os materiais novos não chegam. A equipa internacional não consegue viajar para Portugal. Os que chegam têm de ficar 15 dias de quarentena obrigatória. Os grandes projectos de arquitectura e arte não podem ser construídos devido à conjuntura.

Ao nível do público, Boomers preocupados (representantes de 175 países / territórios confirmados para 2020) enviam mensagens por não poderem viajar.

A tragédia existe. Podemos olhar para ela como quisermos: teorias da conspiração, lições da natureza, promiscuidade alimentar homem-animal, falha das instituições que nos deveriam proteger. É um desastre planetário e regional, colectivo e individual, já presente e ainda futuro, desconhecido.

É o imprevisto, o não sabermos lidar com um fenómeno num mundo que julgávamos estar domado pelo saber e por algoritmos. A narrativa do super-humano acabou.

Infelizmente, este ano de 2020 não é momento para festival, para momentos sublimes na pista de dança com amigos e amigas de todo o mundo. É de reflexão, de nos regenerarmos e, principalmente, cooperarmos. De confiarmos no conhecimento do ser humano que nos pode dar a cura. De criarmos novos paradigmas.

De estarmos atentos àquilo que Yuval Noah Harari sintetiza como: “Neste momento de crise, enfrentamos duas escolhas particularmente importantes. A primeira é entre a vigilância totalitária e o empoderamento do cidadão. A segunda é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global”.

O Covid-19 também pode ser um despertar. Vai dar-nos ensinamentos, ajudar-nos a repensar as nossas vidas. Já nos tínhamos esquecido de ver o planeta com menos poluição. Incita a sermos mais auto-suficientes. Ao apoio a cadeias de abastecimento locais. Vai ajudar-nos a perceber que podemos abdicar do consumismo desenfreado, que os gestos de solidariedade valem mais que o último gadget.

E ainda assistimos a uma avalanche de humor através de memes, vídeos, artes visuais que demonstram que o ser humano além de conseguir ser solidário, vislumbra beleza e riso na tormenta. Deveremos estar confiantes no nosso futuro enquanto espécie.

Acreditamos também que o Boom Festival, projecto de cultura independente sem patrocínios, consiga sobreviver com o vosso apoio. É e será uma fase complicada. 2020 seria o melhor Boom de sempre. 2021 será não apenas isso como também uma grande celebração da nossa humanidade.

Muito Obrigado(a) pelo vosso apoio.